Jesus Recifense, Porches e a Rôla de Brennand

Baseado na provocação do amigo Xico Sá

Maria não era mais virgem e José era seu cafetão. Mas um desses gente boa, que na verdade fazia aquilo por amor.

A amizade surgiu quando haviam sido torturados pelo DOI-CODI por suspeita de serem comunistas. Dizem que até o Brilhante Ustra participou de uma mistura de barbárie e bacanal, lá no II Exército de São Paulo, no dia em que a Laranja Mecânica lascou o Brasil, em 74.

Todo mundo comeu Maria. Alguns, de formas muito pouco convencionais. Depois disso, ela pirou e – como não conseguia mais relacionar sexo com amor – decidiu virar puta. Já José, como a tortura havia comprometido irreversivelmente os dez dedos de suas mãos, resolveu aproveitar seu físico avantajado – praticamente um deus de ébano – para proteger Maria. Foram pra Recife, afim de evitar causar vergonha em suas famílias.

Após anos de trabalho nos arredores do Porto, a amizade entre os dois tornou-se um casamento estranho. Ambos tratavam-se como marido e mulher, moravam juntos, mas não havia sexo. Em 82, porém, depois de uma bicada homérica impulsionada pela depressão pós-derrota no Sarriá, Maria, bêbada, pela primeira vez em oito anos esquecera dos agentes militares e faria amor de verdade com o coitado do Zé.

Jesus, lá do alto, viu a oportunidade perfeita e decidiu que suas férias tinham de terminar. Até os santos choravam por aquele time de Sócrates, Zico e cia. O Brasil sofria com a miséria, a Ditadura e com os gols de Paolo Rossi. E havia ainda aquele belo e improvável amor, entre uma Maria e um José. Ele não resistiu e veio.

Como se entupia de anticoncepcionais e antidepressivos, Maria não havia percebido a gravidez até o quinto mês, apesar da barriga ter crescido um pouco. Ao sentir chutes – invariavelmente quando atendia seus clientes – foi ao médico e descobriu sua condição. Decidiu abortar o mais rápido possível.

Já na clinica clandestina, antes de ser atendida, Maria deu início a um prematuro trabalho de parto. Como duas outras moças estavam em procedimento, ela teve seu filho ali mesmo, no chão de um local que estava mais pra um açougue do que para um hospital. Esse Jesus não teria a sorte de nascer numa manjedoura.

Maria apaixonou-se pelo menino – negro como o pai – no exato instante que o viu, o chamou de Jesus, seu redentor, mas acabou morrendo em decorrência de uma infecção ao terceiro dia. O garoto, como vocês devem imaginar, sobreviveu por um milagre. José, mesmo sem saber se o filho era dele, registrou a criança e arranjou um trabalho de cobrador de kombi na linha Maranguape I – pelo Balaio – Rio Doce.

Jesus era um danado. Já adolescente, nas Maranguas, caiu nas graças dos amiguinhos da comunidade, pois não só transformava água em vinho, como também pão em maconha. Ia salvando qualquer irmão que de baixo se encontrava. Vendia também, pois a larica era cara e não se tinha dinheiro num tempo em que Sarney e Collor haviam lascado a economia.

Em 94, quem vocês acham que desviou o chute certeiro de Roberto Baggio? O garoto só não conseguiu o milagre de eleger o Lula.

O sonho de Jesus era ser advogado, mas pra algumas coisas, naquela época, não havia milagre. Passar no vestibular era demais pra quem havia sido deseducado pelo ensino público. Ele até tentara uma bolsa na Universidade Católica, mas (vejam vocês), não rolou.

Depois de cinco vestibulares, decidiu fazer ciências sociais. Passou, mas não foi milagre, foi cota. Lá no CFCH deixou crescer a barba e aprendeu, sobretudo, sobre um tal Karl Marx, barbudo como ele, que falava em dividir, tal como um outro Jesus do qual ele já suspeitava ser a reencarnação. Enquanto isso, via o pai virar crente e chegar em casa com um papo completamente diferente do que ele mesmo – há mais de 2000 anos atrás – havia dito.

Num desses dias, abriu o jogo com o coroa, disse que era o salvador e foi expulso de casa, acusado de heresia. Mas não culpem o Zé, apenas havia sido alienado pelo sofrimento e o pastor pilantra que comia a nova esposa dele, Madalena. Enquanto ele trabalhava, achava que ela estava no culto, orando.

Mesmo expulso de casa, Jesus seguiu a vida, arrumou um boyzinho legal, casou, adotou uns molequinhos e praticara o deboísmo. Nem o fato de tanto charlatão falar e enriquecer em seu nome mexia com o cabra, que era amor em estado puro e professor de universidade. Mas aí algo mudou: Eduardo Cunha havia posto carros de luxo em seu nome e ele sentiu que devia ao mundo a revelação e a explicação.

Assumindo-se o redentor, Jesus decide prestar depoimento aos órgãos competentes e o bicho pega. Dias depois, além de dizer que Jesus havia recebido propina e era o dono dos veículos de luxo e das contas na Suíça, Eduardo Cunha coloca em debate e votação extraordinária a PEC 171. Na primeira votação, ela é rejeitada, mas conhecemos Cunha e suas emendas aglutinativas. Ao fim da noite a Cristofobia – crime hediondo punível com a (desde 1885) inédita pena de morte – é aprovada na Câmara.

O Senado, de rabo preso, também aprova e dias depois Dilma – coitada, noiada, torando aço com medo do impeachment – sem nem se tocar o que tá assinando, decreta a lei. E adivinhem quem é o primeiro acusado deste crime?

Cristofobia, formação de quadrilha, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva. E ainda puxaram uma ficha dos pães que ele transformara em maconha na adolescência e puseram tráfico de drogas também. Nunca se demorou tão pouco para acontecer um julgamento e nunca ele foi tão rápido. Em 20 minutos saiu a sentença e Jesus foi condenado à morte. E o capataz seria Silas Malafaia.

O pastor – e sua fixação numa rôla – logo encontra uma forma pública e cheia de simbolismo de se livrar de Jesus. Lembra-se da Torre ou Obelisco (ou Pica mesmo) de Brennand, no Marco Zero, em Recife. Decide, então, crucificá-lo lá no dia de Páscoa de 2016, achando que é um programa bem mais cristão do que ver a Paixão encenada por José Pimentel.

E assim, aos 33 anos, o nosso Jesus foi dessa pra melhor. E não, esse não seria idiota de ressuscitar ao terceiro dia…

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