‘Rolezinhos’ e o direito de ser, ir e vir

Digo de antemão: não tenho opinião formada sobre o assunto, tal como ninguém deveria ter e bravatar a mesma Brasil afora, em esquerdismo lunático ou direitismo preconceituoso. Não conheço com precisão as pessoas, as ações, muito menos as consequências dos ‘rolezinhos’, só conheço o vil hábito humano de santificar o lado que lhe convém nos processos e demonizar o que não reza seus dogmas.

Achar que pequenas multidões de adolescentes estão ‘fazendo política’ é tão esquizofrênico quanto dizer que são criminosos. São jovens ociosos, muitos sem direito a educação, e ilhados em suas respectivas periferias. São vítimas à priori que podem, tal como qualquer outra pessoa plena em instrução, condição de vida ou caráter, vitimar outras pessoas. São potenciais criminosos tanto quanto eu e você, logo, não podem ser discriminados como delinquentes.

Sim, houve roubos, agressões, tudo aquilo que é inerente ao processo aglomeração, onde o marginal se camufla mais facilmente. É muita inocência ou tendenciosismo achar que 500, 600, mil jovens, numa só massa, lotados de hormônios e necessidade de autoafirmação, entrando de loja em loja, não causaram prejuízos aos estabelecimentos e aos consumidores. É muita canalhice achar que não poderão causar mais. Lembrem-se, não estamos falando necessariamente de um espaço público, mas de um estabelecimento privado, que vive do movimento que agrega e da segurança que oferece.

Segurança, por sinal, nunca é demais. Desde que respeite o direito de ir e vir do cidadão de bem. Até onde a galera dos ‘rolezinhos’ interfere no direito das outras pessoas eu não sei, nunca vi e, com toda a sinceridade que me é permitida em meu próprio blog, tomara nunca ver. Não é preconceito, apenas guardo para os jogos do Santinha e para o Carnaval de Olinda toda a minha paciência para enfrentar multidões. A questão é que todo dono de estabelecimento tem todo o direito de proteger os seus clientes de eventuais danos, desde que isso não esteja baseado em preconceitos ou qualquer forma de abuso ao inalienável direito de ser, de ir e de vir.

Há, porém, quem trate os ‘maus rolezeiros’ como doença quando eles são, na verdade, os sintomas de uma sociedade doente e excludente, que invade cada vez mais o espaço público que deveria ser destinado aos jovens. Que dá a eles cada vez menos opções de divertimento de acordo com suas possibilidades financeiras. Por exemplo, no país do futebol, faltam campinhos de pelada. Essa carência (como se todas as outras já não fossem suficientes) levam ao comportamento apresentado por muitos desse ‘bonde’. Com isso, os ‘bons rolezeiros’ acabam sendo vítimas da elite e de seus próprios pares, incluídos numa marginalidade baseada exclusivamente na aparência.

Nesse momento abre-se um falso precedente para uma espécie de apartheid, tudo o que a elite brasileira queria para realizar a sua tão sonhada assepsia social: mandar de volta aos locais dos miseráveis aqueles que não necessariamente são, mas aparentam ser. A questão máxima desse processo é a complexidade do julgamento de certo e errado. É quando você se coloca no lugar de um dono de estabelecimento comercial, talvez o seu ganha-pão, que passa por situações como a que aconteceram dias atrás. Vale salientar que os mesmos que defendem os ‘rolezinhos’, são os que reclamam quando as pessoas escutam funk (em Pernambuco, Brega das Novinhas) nas alturas nos ônibus e metrôs da cidade. Há hipocrisia de todos os lados.

Se me perguntassem o que eu faria, eu diria que dialogaria com quem organiza esses pequenos grandes eventos e determinaria regras, tal como você e eu fazemos em nossas casas, aumentaria a segurança (privada, nunca pública), mas nunca impediria alguém de seu direito de ir e vir. O caminho escolhido em São Paulo foi o mais prático, só que o menos inteligente. O menos humano, sobretudo.

Acho que me alonguei demais, apenas quero concluir dizendo que o que mais me incomoda na maioria das discussões que presencio é a completa falta de noção de realidade, tanto dos que defendem os ‘rolezinhos’, quando dos que marginalizam essa forma diferente de divertimento. O debate não pode ser nem apenas amplo, nem somente pontual. De uma coisa, porém, eu tenho absoluta certeza: todos estão errados, inclusive eu.

cnt7291854_h348_w619_aNoChange_video-mostra-aglomeracao-durante-rolezinho-em-shopping-de-sp

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s